O MELHOR DE DOIS MUNDOS – O Ensino Híbrido como resultado da convergência entre a Educação a Distância e a Educação Presencial

Por Ana Luisa Correia Kienen
Imagem do site educamundo.com

Há mais de um século atrás, as escolas foram concebidas a fim de se criar um sistema de educação universal que pudesse atender a um grande número de estudantes. Sendo assim, o modelo industrial – com alunos agrupados por série, sendo ensinados por um professor dentro de um processo padronizado, com as mesmas matérias, ensinando da mesma maneira e no mesmo ritmo – funcionou de forma espetacular.

Porém, diferentemente da economia daquela época, o mundo atual requer um grande número de trabalhadores intelectuais, pessoas que utilizem seu raciocínio para criar soluções, avaliar e resolver problemas. (HORN; STAKER, 2015, p. 32). Desta forma, o que se presencia nos dias de hoje é um processo de transformação significativo no sistema educacional vigente, que vem sendo impulsionado pela evolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação – as TIC´s – e validado através da utilização destas como principal ferramenta no processo de ensino e aprendizagem da Educação a Distância.

Quando a Educação a Distância surgiu ficou popularmente conhecida como uma alternativa secundária e barata para quem não tinha condições de acesso ao Ensino Presencial, seja por falta de tempo, dinheiro ou condições de deslocamento. A verdade é que o ensino on-line tinha pouco apelo para os estudantes de cursos regulares. Entretanto, com os avanços obtidos nas tecnologias interativas expandiu-se também o ensino on-line, alcançando uma variedade mais ampla de estudantes, chegando até a substituir o ensino tradicional em certos casos. (HORN; STAKER, 2015, p. 32).

Este novo contexto social e educacional amplia também a possibilidade de convergência entre os as duas modalidades de ensino. Resulta daí o termo “Ensino Híbrido” ou “Blended Learning”, onde as experiências on-line enriquem aquelas tidas no ensino presencial e vice-versa.

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E PRESENCIAL

Segundo GOEDERT et al. (2011 p. 23), a Educação a Distância surgiu como uma modalidade de educação adequada às novas demandas educacionais e profissionais das sociedades contemporâneas. Em 1728, o Jornal Gazeta de Boston, nos Estados Unidos, lançou o primeiro curso por correspondência. Após a

Segunda Guerra Mundial, em 1945, foi a televisão que despontou como possibilidade de ensino à distância, somando-se mais tarde a outras tecnologias como o rádio e o telefone. Com a chegada da Internet, no final da década de 1980, e a possibilidade de interação entre as pessoas sem a necessidade de presença física, a Educação a Distância evoluiu de forma contínua e acelerada.

De acordo com MORAN (2002), a principal diferença entre a educação presencial e a não presencial é que na primeira, os professores e alunos se encontram sempre num local físico (sala de aula). Já a Educação a Distância, pode ter ou não momentos presenciais, mas na maior parte do tempo, professores e alunos estão separados fisicamente no tempo e ou no espaço podendo, porém, estar juntos através das ferramentas de comunicação, como chats, videoconferências, fóruns e e-mails.

O fato é que, apesar de a Educação a Distância ter sido a primeira a se utilizar de forma intensiva das tecnologias interativas, educadores de todos as modalidades já perceberam que a utilização de tais ferramentas possui grande potencial para aplicação na área educacional. Segundo TORI (2010, p.30), “aos poucos os educadores e os próprios alunos estão descobrindo que os recursos virtuais podem ser um excelente suporte às atividades presenciais”. Por outro lado, algumas instituições que fornecem cursos on-line descobriram que existe um grande número de alunos que também precisa de um lugar para se reunir com os colegas e receber ajuda de seus professores. (HORN; STAKER, 2015, p. 33)

O resultado disso tudo é a convergência entre a aprendizagem eletrônica e a convencional; entre a Educação a Distância e a Presencial. (TORI, 2010, p. 20). Este modelo, também chamado de Ensino Híbrido ou B-learning (Blended Learning) resulta numa mistura de tudo o que ambas as modalidades têm de bom e, por esta razão, diretores e professores de escolas inovadoras buscam unir o ensino on-line com as experiências da escola física tradicional. Ainda segundo TORI (2010, p. 31), “à medida que cursos tradicionais ampliarem a utilização de recursos virtuais e cursos à distância incorporarem mais atividades presenciais ao vivo, ficará cada vez mais difícil separar estas modalidades de ensino”.

O ENSINO HÍBRIDO

Muito se tem discutido a respeito das tendências para a educação do século XXI. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo site Porvir, feita pela plataforma InnoveEdu, que traz um mapeamento de experiências educacionais e inovação feito em mais de 30 países, as cinco tendências que tornam o aprendizado mais significativo e em sintonia com as exigências do mundo atual são as descritas na tabela a seguir: 

TENDÊNCIAS EDUCACIONAIS PARA O SÉCULO XXI

Personalização Estratégias pedagógicas que consideram as formas e os ritmos diferenciados de aprendizagem.
Experimentação Aprendizado a partir da prática.  
Uso do território Ampliação da sala de aula para museus, galerias, praças, empresas, dentre outros.  
Novas certificações Utilização de cursos on-line e espaços informais, além do ambiente acadêmico.  
Competências para o séc.XXI Conjunto de conhecimentos, habilidades, atitudes e competências que preparam para a vida acadêmica, profissional, pessoal e em comunidade.

Sabe-se que o ensino considerado tradicional, como o que vem sendo utilizado na maioria das escolas, não dá conta sozinho das necessidades do aluno de hoje, como conseguia no passado. Em busca de situações de ensino que sejam cada vez melhores e que potencializem a aprendizagem dos alunos, um caminho possível é o Ensino Híbrido, que reúne o que há de melhor no ensino presencial, com as vantagens do ensino on-line, misturando o melhor dos dois mundos.

De acordo com HORN e STAKER (2015, p.53), a definição de Ensino Híbrido é:

“… um programa de educação formal, no qual um estudante aprende, pelo menos em parte, por meio do ensino on-line. Nesta modalidade, o aluno exerce algum tipo de controle em relação ao tempo, ao lugar, ao caminho e/ou ao ritmo, e as atividades são realizadas, pelo menos em parte, em um local físico supervisionado longe de casa. As modalidades, ao longo do caminho de aprendizagem de cada estudante em um curso ou uma disciplina, são conectadas para fornecer uma experiência de aprendizagem integrada”.

Que não se confunda o ensino híbrido com a ação de equipar as salas de aula com computadores e acesso à Internet ou com o simples uso da tecnologia na educação. No primeiro, os estudantes têm algum controle sobre seu aprendizado, enquanto no último, as atividades de aprendizagem são padronizadas para toda a classe. Conforme o site Coursera que, em parceria com a Fundação Lemann e o Instituto Península oferece um curso on-line sobre o Ensino Híbrido:

“Utilizar uma lousa digital com PowerPoint ou Prezi para projetar conteúdo, muitas vezes não se configuram como uma proposta integradora de ensino on-line e ensino presencial.  O que acontece em sala de aula deve interagir com o que acontece on-line e vice-versa. O mesmo vale para o uso de objetos digitais de aprendizagem ou games sem planejamento integrador que justifique seu uso”.

Modelos de ensino híbrido

Para que se perceba mais claramente de que forma o Ensino Híbrido pode enriquecer as experiências de ensino, é necessário conhecer seus desdobramentos. Dentre os modelos propostos por HORN e STAKER (2015) em seu livro “Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a educação”, temos:

Modelo de Rotação: dentro de um curso ou de uma disciplina, estudantes se revezam entre atividades de um cronograma pré-estabelecido pelo professor, sendo que pelo menos uma destas atividades seja desenvolvida virtualmente. As atividades podem acontecer em pequenos grupos ou com a classe inteira; podem também ser projetos de grupo, tutoria individual e tarefas escritas. Este modelo apresenta quatro subtipos, conforme segue:

Subtipos do Modelo de Rotação

Rotação por Estações A turma é dividida em grupos que se revezam em diferentes atividades.
Laboratórios Rotacionais O rodízio acontece entre a sala de aula e o laboratório de informática.
Sala de Aula Invertida O primeiro contato com o conteúdo é virtual, fora da escola e depois, em sala, o aluno tem aulas práticas ou desenvolve projetos orientados pelo professor.
Rotação Individual Cada aluno tem um cronograma individual e não necessariamente participa de todas as estações.

Modelo Flex: dentro de um curso ou uma disciplina, o ensino on-line é a espinha dorsal da aprendizagem do estudante, embora ela possa direcioná-lo para atividades presenciais. O cronograma de estudos é individual e personalizado. O professor é presencial e media o aprendizado através de grupos de estudo pequenos, projetos de grupo ou tutoria individual. Este modelo é bastante flexível e pode apresentar variações de acordo com a necessidade de cada caso.

Modelo Á la Carte: o curso é feito pelo estudante inteiramente de forma on-line, ao mesmo tempo que ele mantém suas atividades na escola presencial. O professor on-line e o professor presencial são figuras distintas.  O curso pode ser realizado na própria escola ou fora dela. Este modelo pode ser utilizado para suplementar o ensino tradicional.

Modelo Virtual Enriquecido: os estudantes têm encontros presenciais, porém desenvolvem a maior parte da aprendizagem de forma virtual; ou seja, o ensino on-line é a espinha dorsal deste modelo. Geralmente, o professor on-line e o presencial são a mesma pessoa, mas os encontros presenciais, embora obrigatórios, não ocorrem todos os dias da semana.       

Vantagens e desafios a serem vencidos

Segundo TORI (2010 apud Moran, 2002) a decisão pela integração das duas formas de aprendizagem, a presencial e a virtual leva a um questionamento importante: como as atividades presenciais podem ser beneficiadas com o apoio de recursos virtuais e vice-versa? Bem, o resultado dependerá de toda uma arquitetura pedagógica e das estratégias de aplicação da mesma para a formatação do modelo pedagógico ideal. (BEHAR, 2009).

 Ao analisarmos as vantagens que modelos pedagógicos onde há a convergência entre a modalidade a distância e a presencial, podemos encontrar, segundo GOEDERT (2011, p. 33):

  • A aproximação e o estreitamento de laços entre alunos e professores, bem como a criação de vínculos entre os mesmos.
  • Melhor aproveitamento no estudo e redução da taxa de evasão nos cursos, já que o aluno pode exercer controle sobre seu ritmo de aprendizagem.
  • Possibilidade de substituição de aulas expositivas por material interativo on-line.
  • Favorece o planejamento de aulas presenciais com maior interatividade entre aluno professor e entre os próprios alunos.
  • Possibilita a criação de fóruns de discussão, a oferta de monitoria on-line aos alunos, laboratórios virtuais, apoio aos projetos colaborativos, acesso à biblioteca virtual e a outros recursos de apoio.
  • Oferece novas possibilidades, como ferramentas de gerenciamento para registro das ações e reações dos alunos – informações úteis para a avaliação do aprendizado e definição de novas estratégias para a condução e evolução do curso.
  • Possibilita a integração das atividades a distância com as presenciais.

Além das vantagens apresentadas, GOEDERT (2011, p.34) traz alguns desafios que também precisam ser levados em consideração, tanto no que diz respeito à instituição quanto aos sujeitos envolvidos no Ensino Híbrido:

  • Deve-se evitar a virtualização da sala de aula tradicional, ou seja, não basta fazer a transposição das metodologias utilizadas em sala presencial para o espaço virtual.
  • Faz-se necessário o engajamento de toda a equipe multidisciplinar da escola.
  • Deve-se se oferecer condições ao aluno para que o mesmo desenvolva uma postura mais ativa e colaborativa.
  • É preciso que haja uma adequação da infraestrutura institucional em consonância com o projeto do curso em questão.
  • O docente precisa de apoio e da oportunidade de formação necessária para a condução do processo ensino-aprendizagem tanto em atividades presenciais quanto a distância.
  • Os aspectos relacionados à avaliação precisam ser discutidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A escola tradicional, criada para satisfazer as necessidades da era industrial, de produção em massa, com profissões bastante específicas e um mercado de trabalho estável não tem mais como atender às necessidades e anseios de uma geração que vive em um mundo mais complexo, imprevisível e onde a informação está disponível a todos. A inserção das tecnologias digitais na educação – com a evolução da Educação a Distância – produziu transformações significativas no modo de ensinar e aprender.

De acordo com Marjo Kyllönen, palestrante do evento Transformar 2015, promovido pela Fundação Lemann, o Inspirare/Porvir e Instituto Península, as expectativas em relação ao papel da escola e do aluno mudaram. O foco não está mais na memorização e repetição extenuante de conteúdo, mas sim, no desenvolvimento da atitude colaborativa do aluno, de seu pensamento crítico, sua criatividade e sua capacidade de solucionar problemas.

Novas tendências educacionais, como a personalização do ensino, a experimentação, o uso do território, as novas certificações através de cursos on-line e o desenvolvimento de competências sócio emocionais são demandas que exigem mudanças práticas nas salas de aula do mundo todo. Os professores

precisam oportunizar momentos para que os alunos possam usar sua criatividade, interagir com seus pares e desenvolver sua autonomia e não é através de aulas essencialmente expositivas que isso irá acontecer.

Resultado da convergência entre a Educação a Distância e a Educação Presencial, o Ensino Híbrido e a flexibilidade demonstrada em seus modelos de aplicação apresenta-se como uma proposta inovadora e

que vem de encontro às necessidades dos alunos do século XXI. Segundo TORI (2010, p. 36):

“Enquanto as atividades presenciais ao vivo propiciam maior contato entre os participantes, feedback instantâneo e emocional, entre outras vantagens do ‘estar junto’, as atividades virtuais podem complementar a aprendizagem e reduzir a necessidade de encontros ao vivo, além de permitir um monitoramento detalhado da participação e do desempenho de cada aluno ou da turma toda. Se na modalidade presencial é mais fácil engajar o aluno, socializar a turma e colher diversos tipos de feedbacks, nas atividades remotas, ou com apoio de recursos virtuais, é possível atender a diferentes estilos e ritmos de aprendizagem e aumentar a produtividade do professor e do aprendiz”

Como toda inovação, esta nova modalidade de ensino vem com muitos desafios a serem superados, principalmente no que diz respeito à ruptura de paradigmas culturais dentro do próprio ambiente escolar e ao engajamento de toda a equipe multidisciplinar. Além disso, a implantação de um novo modelo não é tarefa fácil. Existe toda uma arquitetura pedagógica, uma estrutura a ser desenvolvida, bem como as estratégias para a aplicação desta arquitetura. Implementar o Ensino Híbrido vai muito além do que inserir tecnologias na sala de aula. As estratégias de aplicação a serem elaboradas para a aprendizagem correspondem a um plano que se constrói e reconstrói continuamente. BEHAR (2009, p. 31)

REFERÊNCIAS

BEHAR, P.A. Modelos pedagógicos em Educação a Distância. Artmed: Porto Alegre, 2009.

COURSERA. Introdução ao Ensino Híbrido. Disponível em: <https://www.coursera.org/learn/ensino-hibrido/lecture/YCx6C/introducao-ao-ensino-hibrido>. Acesso em: 02 mar. 2017.

CURRICULO para o século 21. Palestra com Marjo Kyllönen. Transformar 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=XF8uxdAyDZA>. Acesso em: 01 mar. 2017.

GOEDERT, Lidiane; MACIEL, Vanessa de A.; SILVA, Maria Cristina da R. F. da. Fundamentos da educação a distância: caderno pedagógico. 2ed. Florianópolis: CEAD/UDESC/UAB, 2011.

HORN, Michael B.; STAKER, Heather. Blended: usando a inovação disruptive para aprimorar a educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

MORAN, José. O que é educação a distância. Disponível em: <http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/dist.pdf>. Acesso em 26 fev. 2017.

PORVIR. Porvir lança mapeamento de experiências de inovação em educação. Disponível em: < http://porvir.org/porvir-lanca-mapeamento-de-experiencias-de-inovacao-em-educacao/>. Acesso em: 02 mar. 2017.

TORI, Romero. Educação sem distância: as tecnologias interativas na redução de distâncias em ensino e aprendizagem. São Paulo: Editora Senac, 2010.

* Trabalho acadêmico referente à unidade curricular Introdução à Educação a Distância do Programa de Pós-graduação em Educação do semestre 2017-1. Instituto Federal de Santa Catarina – Câmpus Gaspar.

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