Eu, eu mesma e um propósito equivocado

Texto publicado no site umaboadose.com em 05/03/2016

Dias atrás, estava na sala de espera de um consultório médico quando li uma frase que, naquele momento foi libertadora.

“Você não nasceu com um grande propósito de vida. A sua existência já é seu grande propósito”.

Não me lembro das palavras exatas, mas reli a frase repetidas vezes enquanto minha mente fazia diversos questionamentos, numa conversa interna a qual eu já estava habituada. Como assim eu não nasci com um grande propósito de vida? Estou esses anos todos correndo que nem louca atrás do quê, então? Mas, e essa angústia que me oprime e me desafia a descobrir o que eu vim fazer nesse mundo? O que eu faço com ela? Já tentei ignorá-la tantas vezes, mas ela sempre, sempre volta.

“Seja você mesmo e encontrará a felicidade” – dizia o parágrafo seguinte.

Ser eu mesma. Oras, mas não é justamente isso que eu tento fazer todos os dias? Foi por essa razão que eu tranquei minha primeira faculdade: resolvi largar um sonho que não era meu e partir para uma carreira que fosse a minha cara. E também foi pensando em ser eu mesma que larguei um empregão e aceitei recomeçar do zero, ganhando um salário bem menor (…). Seja lá qual for a receita de felicidade que a matéria queria passar, ela definitivamente não funcionava comigo. Estava decidida a passar para a reportagem seguinte quando li destacado, em negrito:

“Não confunda quem você é com os desejos do seu ego”.

Precisei fazer nova parada e ter mais uma conversinha comigo mesma. O texto insinuava que eu não era quem pensava ser e sim o que os outros esperavam que eu fosse. Será que, mesmo depois de tanta busca, dos livros de autoajuda e workshops sobre autoconhecimento, eu ainda estava presa àquela cilada?

Li a matéria até o final, mas foi o início provocador que levei junto comigo. Desde esse fatídico dia na sala de espera, posso dizer que a costumeira angústia em encontrar algo que nem eu sei o que é está diminuindo. E, no lugar, brotou um misto de alegria e gratidão. Se o simples fato de existir já é meu maior propósito, penso que acordar cedo todos os dias e vencer a famigerada preguiça seja uma grande vitória – pelo menos sobre mim mesma.  Isso quer dizer que me dedicar com carinho aos cuidados da minha família e da minha casa fazem parte do meu propósito também. O café da manhã na mesa, o cheirinho de amaciante nas roupas, o lanchinho saudável na lancheira.

Estas e várias outras coisinhas pequenas que faço – e gosto – costumavam ficar de fora quando eu pensava em meu propósito de vida. Estava exausta com a busca desenfreada em atingir um objetivo: fazer da minha vida profissional a razão da minha existência, onde eu pudesse ser reconhecida e valorizada.  Mais tranquila, hoje consigo perceber que a felicidade está bem pertinho de mim, nas atividades simples, porém grandiosas do meu dia-a-dia. A verdade é que, no fundo, fiquei feliz de saber que aquele propósito era equivocado. Agora, me resta ser persistente e, principalmente vigilante, para não deixar que o ego venha e me confunda outra vez.

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